Como sempre, eu me achava deitado, com meu notebook, sobre o abdômen, não havia muito o que fazer ali, mas eu insistia em pular de uma rede social, para outra procurando alguma atualização realmente interessante, ou talvez estivesse esperando nada, só o vício de trocar de guia me animava febrilmente. Ri com alguns erros medonhos de escrita, as pessoas esquecem, que computador, tem todas as teclas correspondentes a letras e a sinais de pontuação e derivados... Meu telefone tocou.
E minha preguiça foi imensa, eu não queria me levantar, mas alguma coisa me forçou. Vai entender o universo, não é?
- Alô? Eu disse, minha voz falhou um pouco, e então repeti: - Alô?
- Oi. É você Luiz?
- Oi. É você Luiz?
- Quem fala, por favor? – Eu odiava gente que liga e não se identifica, e ainda pergunta se sou eu, no meu próprio celular...
- Maria. Desculpe ligar tão tarde...
- Não é nenhum incômodo, mas que Maria?
- Maria, da noite retrasada... Bem você estava bem louco, não sei se vai lembrar...
E COMO ESQUECER? Aqueles olhos ‘’preto chama’’? A Maria da noite retrasada... Que me trouxe em casa, depois de quatro garrafas de vodka e algumas drogas. Acendi um cigarro, para me acalmar, eu não lembrava de ter dado meu telefone...
- Luiz?
- Luiz?
- Hã... Oi.
- Você esta ocupado?
- Depende.
- Depende de quê? – Ela parecia estar sorrindo.
- Do convite...
- Não, eu não ia fazer convite nenhum...
- Ah, não?! – Juro, que senti um leve rubor no rosto, eu estava indo rápido demais.
- Eu só liguei para saber se você estava bem...
- Claro que sim, aquilo foi noite retrasada, me recuperei ontem...
- Me desculpe não ligar antes, eu estava procurando seu telefone. E à propósito, você tem um belo apartamento.
- Sinta-se convidada a vir quando quiser.
- Obrigado.
(silêncio)
Terminei de fumar meu cigarro pus a ponta no cinzeiro, segurei o celular com o ombro, próximo à orelha e fui checar meu vinil, procurando alguma coisa calmante. Aquela mulher mexia demais comigo, e eu não lembrava bem dela, só dos olhos, e agora da voz, que me fazia tremer, com as notas meio roucas.
- Luiz? – Ela sempre me chamava como uma pergunta.
- Sim... – Dessa vez eu sorri, não via lógica na nossa conversa.
- Gosta de sushi?
- Hã... Hm... Não. Mas se você quiser sair...
- Não, não. Eu também não gosto...
- Ah, sim... Engraçado.
-O quê? O sushi? – Eu sorri desse lado e a escutei fazer o mesmo.
- Não, bobo. Pessoas interessantes gostam de sushi.
- Você não gosta de sushi, e é interessante...
- E você não me conhece. (mais risos)
Eu gostava de falar com ela, mesmo que fosse sobre gostar ou não de sushi, era bom, era como se ela me ninasse. Eu ainda procurava um vinil, quando pus qualquer um, o desespero era demais, e eu precisava me acalmar era só uma mulher... Só a Maria...
- Luiz o que você esta fazendo?
- Estava no computador, mas você me tirou do tédio. E você o que está fazendo?
- Estava lendo, até que não sei por que liguei para você...
- O destino escreve certo por linhas tortas.
- A mais manjada de todas Luiz, e o certo seria: Deus escreve certo...
- Eu prefiro o destino. – Disse rápido demais.
- É?
- É.
- Luiz, eu acho que vou desligar.
- Mas já?
- É que estou com sono.
- Eu tenho um vinho aqui Maria...
- Eu tenho um vinho aqui Maria...
-Desculpe, eu não bebo.
COMO ASSIM NÃO BEBE? O que ela estava fazendo naquele bar então? Que ironia ridícula do destino. Era como ir à um cabaré sem querer sexo, tomar injeção, sem estar doente...
- Luiz?
- Oi... oi.
- Eu ainda posso ir aí, sem beber? – Eu tive que rir, que pergunta idiota.
- Mas é claro, você ainda sabe o caminho?
- Eu tenho uma boa memória...
- Então pode vir.
- Não está meio tarde...?
- Nunca é tarde para pessoas como você.
-Você esta me cantando Luiz?
- Oh, não! De maneira nenhuma...
- Melhor assim.
(silêncio)
- Maria?
(silêncio)
- Alô?
Ela tinha desligado, então esperei ela chegar, eu passei a mão nos cabelos rebeldes, me olhei no espelho, e minha cara não estava tão ruim... Escovei duas vezes os dentes, afinal, era a Maria, aquela Maria da noite retrasada...
Eu não tive tempo nem de conferi minhas roupas e a campainha tocou, tremi até lá, e abri a porta, e ela estava com uma calça jeans escura, uma regata também escura, que deixou uma parte do sutiã de renda preta à amostra ( e como as mulheres gostam de provocar, não?) tinha os cabelos meio manchados por mechas castanhas que lhe caiam no ombro meio mostrando, meio escondendo, uma peça de quebra cabeça, que tinha tatuada no ombro....
- Luiz? – Ela sorriu, e eu vi como sua voz, era nada, perto do sorriso dela.
- Ah, sim... Entre.
Ela entrou, sentou-se no meu sofá, e lhe trouxe um refrigerante, falamos da vida dela, da minha vida, ela chorou quando falou do seu ex-namorado que tinha morrido, eu a abracei, mas o que eu queria no telefone, não queria mais... Sei lá, eu queria que ela estivesse mais tempo comigo, eu não queria tirar as roupas dela. Não...
Comemos hambúrgueres, e depois de conversamos a noite toda, ela disse que tinha que ir embora, eu não podia deixar.
- Fique, durma aqui...
- Luiz, não tem muito sentido.
- Fique, eu durmo no quarto de hóspedes, se achar assim melhor.
- Não, eu durmo lá.
- Eu não vou deixar.
- Então...
- Pronto, pode ser assim. – Eu não poderia a deixar ir.
- Aceita uma taça? – Ofereci meio encabulado, mais uma vez meu vinho, é que era um vinho tão bom...
- Bem, eu acho que uma não mata ninguém, não é mesmo? – Ela me sorriu.
- Isso garota. – Demos boas gargalhadas.
Ela tomou duas taças, e já estava sorrindo demais. Era fraca para bebidas. Era engraçado vê alguém assim, meus amigos eram dá pesada demais perto... Dela.
Ela me olhou por um instante e me disse, sem sorrisos no rosto:
- Me abraça Luiz.
E eu não podia negar e abracei-a.
- Sabe Deus escreve certo por linhas tortas... – Ela me disse meio sonolenta.
- Acho melhor o destino.
- É? – Mas uma vez ela me perguntou.
-É. – Mas uma vez eu respondi e ela sorriu e fechou os olhos.
Ela não demorou muito para adormecer, olhei-a dormir por alguns segundos e dormi também.
E naquela noite eu descobri, que como diz Machado de Assis : Eu gosto de olhos que sorriem, de gestos que se desculpam, de toques que sabem conversar e de silêncios que se declaram.
E ah, a Maria tinha todos eles.
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